Absorventes internos na berlinda

by admin on 22/01/10 at 12:00 am

Já ouviu falar de um xampu que causa câncer? Ou de uma epidemia (sic) de esclerose múltipla provocada por adoçantes artificiais? Notícias como essas circularam pela internet e acabaram por assustar os internautas. A última que chegou ao Brasil – como as outras, anônima – diz respeito aos absorventes internos. Uma mensagem intitulada “Alerta às mulheres” afirma que o produto estaria sendo produzido com amianto, substância mineral que contém magnésio e cálcio, usada na produção industrial e altamente tóxica. Os males que o amianto pode causar à saúde são tema de dezenas de trabalhos científicos – e se referem, em quase 100% dos casos, ao câncer de pulmão causado pela inalação da poeira dessa substância. O amianto, segundo a nota, induziria as mulheres a menstruarem por mais tempo e poderia causar câncer de colo de útero. Além disso, o absorvente interno conteria altas doses de dioxina, componente químico utilizado no processo de clareamento de produtos, com ação cancerígena. Documento assegura que afirmações são improcedentes O “Alerta às mulheres”, que se espalhou pelos Estados Unidos e pela Inglaterra e agora chega ao Brasil, causou alarme entre as consumidoras. A empresa americana Procter & Gamble, fabricante de uma marca de absorvente interno, passou a receber de duzentos a quinhentos e-mails por mês com dúvidas das usuárias. E a agência reguladora de drogas e alimentos nos Estados Unidos, a superconfiável Food and Drug Administration (FDA), contestou com dados técnicos todas as informações. Em documento oficial, a FDA afirmou que o amianto não é usado na fabricação de absorventes internos – não existem registros de que quem usa esse tipo de produto menstrue por mais tempo – e que os níveis de dioxina estão rigorosamente abaixo daquele que o torna detectável nos testes de qualidade, não oferecendo qualquer risco à saúde. Os absorventes internos são feitos de algodão e rayon (fibras de celulose derivadas da polpa da madeira) e o processo de clareamento das fibras produz níveis baixíssimos de dioxina, o que não a torna prejudicial. A Johnson & Johnson do Brasil, outro fabricante de absorvente interno, afirma que segue os padrões de qualidade internacionais. “A FDA provou com bases técnicas a improcedência dessas notícias e nós a divulgamos para as consumidoras que procuraram maiores informações”, declarou a sua assessoria de imprensa. Sem relação direta com casos de doença grave Os médicos são unânimes em afirmar que não existem relatos na literatura médica indicando a ligação de absorvente interno com qualquer tipo de câncer. “A única causa comprovada de câncer de colo de útero é a infecção pelo vírus HPV”, afirma o ginecologista Ricardo Chazan, do Hospital do Câncer, em São Paulo. O ginecologista Marcos Desidério Ricci, do Hospital das Clínicas de São Paulo, também diz não ter conhecimento desse tipo de efeito. “O que se sabe é que o uso continuado de absorvente interno pode causar doença inflamatória pélvica em algumas mulheres”, diz. Mas isso não quer dizer que promova o câncer. “Soam a especulações sem nenhum fundamento”, acrescenta Chazan. Até porque os absorventes internos são usados há tantos anos pelas mulheres que a comunidade médica já teria feito um sério alerta caso provocassem, de fato, algum mal. Matéria de julho de 2000

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