Adolescentes no bisturi

by admin on 04/11/09 at 12:00 am

Os adolescentes que procuram cirurgiões plásticos para eliminar uns quilinhos, corrigir o nariz ou colocar silicone nos seios, são cada vez mais numerosos. Além de investir na prática de exercícios físicos e alimentação balanceada, os jovens fazem lipoaspiração, implantes de silicone e usam recursos cirúrgicos na busca da perfeição estética. Mas os médicos alertam: a cirurgia plástica em jovens exige cuidados especiais. Intervenções desnecessárias em um corpo ainda em formação podem trazer riscos à saúde física e mental. “O jovem que é submetido a uma intervenção cirúrgica sem indicação médica está trilhando um caminho artificial. Cirurgia é algo sério, um ato que deve ser bem pensado, mesmo sob o ponto de vista estético, e mais ainda em um adolescente, que está se formando para enfrentar a vida. Se o jovem acha que o seu corpo vai ser mantido através apenas de cirurgia, está equivocado”, afirma a cirurgiã plástica Márcia Rosa de Araújo, coordenadora da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj). Perfil psicológico é fundamental para avaliação médica Para o cirurgião Luiz Fernando DaCosta, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o médico deve ter experiência para fazer a avaliação exata das necessidades do jovem paciente, levando em consideração seu comportamento psicológico. “Os médicos devem avaliar criteriosamente, e junto com os pais, se o desejo da cirurgia é uma questão de vaidade ou, no caso de uma lipoescultura, por exemplo, se os quilos a mais estão afetando a auto-estima da adolescente, prejudicando seu convívio social”, analisa. Lipoaspiração só em casos muito especiais, e depois dos 16 anos O caminho mais rápido para chegar a um corpo esbelto pode ser a lipoaspiração, entretanto, para a Dra. Márcia Rosa de Araújo, a indicação em jovens deveria ocorrer apenas em casos especiais. “Hoje existe um forte apelo, uma supervalorização do corpo magro, trabalhado, e a lipoaspiração, sem dúvida, é o caminho mais rápido para atingir esse objetivo. Submeter a essa cirurgia uma jovem que pode fazer exercícios físicos e ter alimentação adequada para manter o corpo em forma e a saúde em dia é um exagero. Mais do que isso, é um risco, tanto para pacientes como para médicos. Lipoaspiração em adolescente só deve ser indicada para corrigir uma distrofia”, adverte. É o caso, por exemplo, de um culote exagerado, que não pode ser corrigido por meio de ginástica e provoca na jovem a perda da vontade de namorar, de estar com os amigos. “A distrofia pode não causar danos físicos, mas, sim, psicológicos”, pondera a médica. O Dr. Luiz Fernando DaCosta afirma que, mesmo nos casos de prejuízos psicológicos, a lipoescultura só dever ser realizada a partir dos 16 anos de idade. “A indicação de lipoescultura é para pessoas acima de 16 anos e que estejam no mínimo 10% acima do peso ideal para a idade. Eu, particularmente, não faço cirurgia localizada. Considero a harmonia do corpo”, revela. As lipos e a correção nariz são as operações mais requisitadas pela garotada Segundo os especialistas, as cirurgias mais procuradas por adolescentes são as lipoaspirações (preferência número um entre as meninas) a de nariz (a predileta entre os meninos e a segunda na preferência das jovens), de orelha de abano (a segunda escolhida pelos meninos e terceira pela meninas), e de redução ou aumento de mama em moças e rapazes. “Procedimentos médicos cada vez mais seguros e resultados positivos também têm levado os jovens a se interessarem cada vez mais pelas cirurgias plásticas estéticas”, acredita o cirurgião plástico. Conheça indicações e contra-indicações das cirurgias estéticas em adolescentes Rinoplastia – a cirurgia corretora de nariz A cirurgia corretora de nariz (rinoplastia) é indicada a partir dos 15 anos, pois, de acordo com a cirurgiã plástica Márcia Rosa de Araújo, a partir dessa idade os ossos já estão solidificados. Segundo o Dr. Luiz Fernando DaCosta, as técnicas usadas atualmente remodelam apenas o essencial. “A rinoplastia corrige apenas o excesso. A tendência é manter as características pessoais. Os narizes não são todos iguais. A cirurgia é indicada para fazer com que a sua forma se torne mais suave, sem que perceba-se que foi submetido à cirurgia”, destaca o médico. Orelha de abano As chamadas orelhas de abano podem gerar sérios problemas psicológicos em crianças e adolescentes. A partir dos sete anos já existe indicação cirúrgica, pois nesse período a orelha já está totalmente formada e quase igual ao tamanho daquela do adulto. Além disso, é nesse fase escolar que a criança passa a ser alvo de chacota dos colegas. “A orelha de abano pode ser corrigida a partir dos sete anos e deve ser feita assim que a criança solicitar. Quanto mais cedo, melhor, porque a cartilagem está menos dura. Às vezes, o estresse dos pais em relação a essa deformidade é tão grande que eles ficam mais apreensivos do que a criança. Mas, nesse caso, devemos obedecer o desejo do jovem”, pondera o Dr. DaCosta. Gigantomastia (redução do volume das mamas em mulheres) A Dra. Márcia Rosa chama atenção para os riscos da cirurgia de redução do tamanho dos seios nas adolescentes. Segundo ela, se a mama for exageradamente grande e causar desconforto físico e mental na adolescente, há indicação cirúrgica a partir dos 16 anos. “Caso haja comprometimento nas atividades e amadurecimento na personalidade, a intervenção cirúrgica deve ser feita a partir dos 16 anos, pois nesse período os hormônios começam a se apresentar em dosagens adequadas. Antes disso, se a jovem for submetida a uma cirurgia corretiva, as mamas podem voltar a crescer devido a influências hormonais outras”, enfatiza. A médica ressalta ainda que, muitas vezes, uma adolescente com a mama muito grande pode vir a desenvolver outros problemas de saúde. “Na tentativa de esconder as mamas, a menina curva o tórax, tentando disfarçar algo que lhe é incômodo. Temos que avaliar cada paciente para decidir ou não pela intervenção”, afirma. Ginecomastia (redução do volume de mamas em homens) De acordo com a cirurgiã plástica Márcia Rosa de Araújo, a cirurgia para redução do volume de mamas nos meninos, a chamada ginecomastia, que pode ser provocada por uso de anabolizantes, deve ser indicada apenas quando promove desconforto e impede o convívio social. Aumento de mamas em adolescentes é condenado Já as cirurgias de aumento de mama em adolescentes encontram mais resistência dos médicos. Apesar de frisarem que ainda não existe comprovação científica de que as próteses provocam câncer ou inibem o crescimento do tumor na presença do silicone, eles são cautelosos em relação a esse tipo de intervenção cirúrgica em jovens. “As próteses não estão indicadas em adolescentes. Só devem ser colocadas depois de pelo menos cinco a seis anos da primeira menstrução. A não ser que seja por uma exigência do trabalho. Depois de avaliadas as condições físicas e psicológicas de uma modelo de 18 anos, por exemplo, a cirurgia pode ser realizada”, considera o cirurgião Luiz Fernando DaCosta. A Dra. Márcia Rosa também não recomenda cirurgia para aumentar os seios antes dos 18 anos. “Esta é uma decisão que deve ser amadurecida. O perfil da paciente tem que ser muito bem avaliado. A pessoa só vai chegar à conclusão se sua mama é pequena ou não quando estiver com o corpo formado, já tiver algumas experiências sexuais. Eu não colocaria próteses em mamas de tamanho considerado normal”, frisa a médica. Exigência legal De acordo com as leis do país, os pais precisam autorizar a cirurgia plástica nos filhos menores de idade. Mais do que uma exigência legal, a dra. Márcia Rosa ressalta a importância de uma conversa esclarecedora com os pais de adolescentes que manifestam desejo em se submeter a cirurgia estética. “A cirurgia plástica estética em jovens tem uma relação muito estreita com a psiquê do paciente. É importante haver uma discussão com os pais para eles ficarem cientes da necessidade do filho em relação à deformidade que ele sente. A definição de saúde para a Organização Mundial de Saúde é algo mais amplo. É também contribuir para o bem-estar psíquico do ser humano”, conclui.

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