Cortisona na quantidade certa

by admin on 10/11/09 at 12:00 am

Potente antiinflamatório, a cortisona vem sendo consumida com desconfiança e absoluto receio devido aos inúmeros efeitos colaterais que provoca. Mas, bem administrada, e isso quer dizer no momento e na dose adequados, pode ajudar uma pessoa a recuperar o equilíbrio orgânico. “Comparo a cortisona a um jet ski: tanto pode ser uma ‘ferramenta’ de lazer como uma arma mortal. O segredo é saber usar”, diz José Goldenberg, professor-doutor de clínica médica e reumatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e vice-presidente para a Economia da Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein (Brasil). São dois os mecanismos de ação da cortisona: ataca fortemente os processos inflamatórios e, em quantidades maiores (como as usadas em tratamentos quimioterápicos), age nas células de defesa. “Diminui a ‘briga’ das células contra as infecções”, diz Arnaldo Lichtenstein, doutor em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) e clínico-geral do Hospital das Clínicas. Ou seja, baixa a imunidade. Em casos crônicos De curta ou longa duração dentro no organismo – sua meia-vida biológica varia de oito a 54 horas –, a cortisona pode ser o “remédio da hora” no sentido de reverter rapidamente algum episódio agudo, como um choque anafilático – violenta reação alérgica a um medicamento. “Isso não quer dizer que a cortisona vá impedir novas reações. Ela não cura a alergia”, explica Lichtenstein. O uso desse tipo de droga tem sido mais freqüente em doenças como artrite reumatóide, lúpus eritematoso, hepatite crônica e asma brônquica. “A aplicação, relativamente recente, da cortisona no tratamento da asma mudou o curso dessa doença”, diz Lichtenstein. “Houve, de fato, uma diminuição no número de mortes.” No caso do lúpus eritematoso (que causa manifestações na pele, nas articulações, no sangue e no cérebro), antes da cortisona a estimativa de mortalidade de um paciente com a doença era de 30 a 40% em cinco anos. “Hoje, não é mais do que 5% em dez anos”, avisa Goldenberg. O uso crônico, porém, exige que o médico faça um detalhado histórico clínico de seu paciente (incluindo doenças que acometeram os familiares) para que possa ser avaliado qual tipo de corticosteróide (cortisona, hidrocortisona e prednisona são alguns deles) é o mais indicado – essa também é uma tentativa de minimizar os efeitos colaterais. “O que se discute hoje é o regime de doses. Não existe uma receita coletiva. Cada organismo reage de uma maneira. Então, como se sabe que a cortisona reduz a massa óssea, o médico tem de fazer um estudo, durante o tratamento, para detectar se esse tipo de perda continua ocorrendo”, diz Goldenberg. É por razão como essa que a droga deve ser dada com bastante cuidado (e até vigilância) a mulheres com osteoporose (enfraquecimento gradual e progressivo dos ossos, que ficam frágeis e suscetíveis a fraturas) e a diabéticos, hipertensos e pacientes com catarata. “O controle dessas doenças fica mais difícil”, avisa Lichtenstein. Quem sofre do coração também precisa ser monitorado de perto. “Insuficiência cardíaca com cortisona pode provocar edema agudo de pulmão”, afirma Goldenberg. Há casos em que a cortisona é receitada inapropriadamente. “Com a intenção de diminuir a secreção, alguns médicos a ministram para combater sinusite, infecção nos ouvidos (otite) ou bronquite aguda. Mas esse medicamento não deve ser usado em situações como essas por causa dos inúmeros efeitos colaterais”, diz Lichtenstein. As reações vão de acne a diabetes Se ministrada por curta duração, a cortisona não costuma produzir reações indesejáveis. Em dosagens mais altas e por tempo prolongado é capaz de promover efeitos colaterais graves, tais como:diabeteshipertensãopsoríaserisco maior de infecções provocadas por fungos e bactérias oportunistas, como a da tuberculose, já que o organismo sofre baixa de resistênciahiperglicemia (aumento de açúcar no sangue)maior deposição de gordura no rosto e na coluna cervicalaumento de gordura no sangue e também nos vasos, o que pode acarretar aterosclerosefragilidade capilar, cujo resultado visível são manchas, espinhas e acne no rostobaixa de potássio, que produz câimbra, fraqueza e arritmia cardíacaretenção de líquidos e de sal, fator que acaba causando inchaço, sobretudo na faceexcesso de pêlos no rosto da mulherdificuldade de cicatrização “A cortisona, por sua ação euforizante, pode levar ao vício uma minoria dos pacientes”, diz Goldenberg. “Outras manifestações psiquiátricas, como psicose e alucinação, também já foram observadas. Felizmente, são casos raros.” Alguns dos efeitos colaterais provocados pela alta dosagem de cortisona são irreversíveis, como osteoporose, estria, catarata e glaucoma. As outras reações vão desaparecendo a partir do momento em que se baixa a quantidade do remédio – que tanto pode ser tomado via oral como por intermédio de injeção (inalação, spray nasal, creme ou pomada não costumam desencadear conseqüências tão desagradáveis). “O ideal seria tomar a menor dose no menor tempo possível”, diz Lichtenstein. Quando isso não é possível, o paciente precisa ser tratado quase de maneira “compartimentalizada”. “Para osteoporose, receita-se cálcio; para pressão alta, anti-hipertensivo. O remédio tem de ser específico para cada efeito colateral.” Para se ver livre desses problemas, a saída seria a indústria farmacêutica produzir uma droga que só tivesse as vantagens da cortisona. Ao que parece, essa tentativa foi frustrada. “Já está no mercado o deflazacort (princípio ativo), que prometia ter menos efeitos colaterais. Mas estudos científicos não comprovaram essa tese”, alerta Lichtenstein. “A nova cortisona sintetizada não trouxe nenhum benefício sobre as outras já existentes”, concorda Goldenberg. Atenção na descontinuidade Um dos perigos de se tomar cortisona é não obedecer as regras de descontinuidade. “Usada por período prolongado, a droga acaba inibindo a produção de cortisol pela supra-renal (localizada acima do rim, produz esse hormônio que controla várias funções orgânicas). E, para que a glândula tenha tempo de se recuperar, a retirada do remédio deve ser lenta e gradual”, aconselha Goldenberg. Embora rara, a doença de Addison, como ficou conhecida a síndrome que caracteriza a retirada abrupta da cortisona, pode produzir rápida queda de pressão arterial, fraqueza e tontura. A síndrome de Cushing também pode ser resultado de altas dosagens de cortisona no organismo. A outra causa é um tumor na hipófise (glândula localizada no cérebro, que regula a ação de outras glândulas endócrinas, como a tireóide e a supra-renal), no pulmão ou na própria supra-renal, que acaba provocando excessiva produção de cortisol. Os sinais que caracterizam a síndrome são obesidade (incluindo “cara de lua”, alusão ao formato redondo do rosto), hipertensão arterial, osteoporose, diabetes, menstruação irregular (ou falta de), agitação, depressão e distúrbios do sono. Matéria de abril de 2000

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