Idade para prática de boxe pode baixar para 12 anos

Esta semana, o boxe esteve em evidência no Brasil. E não foi por causa de nenhuma luta do campeão Acelino Freitas, o Popó, pugilista brasileiro mais famoso dos últimos anos. O que trouxe o assunto para o centro do ringue foi a notícia de que a Confederação Brasileira de Boxe quer diminuir a idade mínima para a competição desse esporte. De 16 para 12 anos. Hoje, no país, apenas adolescentes de 16 anos estão autorizados a competir. Em Cuba e nos Estados Unidos esse limite é bem mais baixo. Até garotos de 7 anos já começam a treinar. O problema é que, com a procura cada vez maior do esporte por jovens seduzidos pelo sucesso de Popó (que começou a treinar aos 11 anos), cria-se um impasse. O atleta que inicia sua atividade esportiva precocemente tem chances de um melhor desempenho do que aquele que começa a praticar essa atividade física aos 16 anos. “Para todos os esportes, 12 anos é a melhor idade. É quando o garoto está apto para aprender movimentos mais complexos e assimilá-los com mais facilidade”, defende o professor Luiz Carlos Fabre, do centro de práticas esportivas da Universidade de São Paulo (USP). “Já pensou um rapaz começar a aprender vôlei aos 16 anos?” Consequências imediatas O problema do boxe é a violência. “O máximo que pode acontecer é quebrar o nariz, dentes, maxilar ou supercícilio”, diz Fabre. Ele lembra que as regras do boxe amador e mirim são mais brandas do que as do boxe profissional. “Usam-se luvas maiores para diminuir o impacto do golpe e capacete para proteger a cabeça, por exemplo”, enfatiza. Mas para o neurologista infantil Luiz Celso Vilanova, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as regras só reforçam a idéia de que o boxe é um esporte de risco. “O objetivo dessa modalidade é provocar um nocaute, que significa uma conseqüência profunda para o cérebro. Tanto é que o atleta fica por alguns segundos sem conseguir reagir e com fraqueza muscular”, explica. A longo prazo A longo prazo ainda não se sabe o que essas conseqüências podem provocar. No nocaute, o atleta leva um soco que provoca uma mínima rotação do cérebro. “Essa estrutura fica solta na caixa craniana, protegida apenas por um líquido. Ao levar a pancada, há um abalo que, às vezes, é suficiente para provocar microssangramentos e microlesões”, explica Vilanova. Dependendo da área cerebral afetada podem ocorrer, por exemplo, alterações de memória e da coordenação motora - que caracteriza o mal de Parkinson. “Quanto mais precoces as pancadas, portanto, mais precoces podem ser as conseqüências”, diz Vilanova. O neurologista lembra que um dos maiores ídolos do boxe mundial, Muhammad Ali, acabou com seqüelas irreversíveis por causa das múltiplas lesões. “Ele teve mal de Parkinson precoce”, diz Vilanova. O professor da USP rebate a informação. “Se o boxe causasse mesmo Parkinson, muitos mais lutadores teriam a doença.” Como fica o aspecto emocional de quem luta Quanto à agressividade há consenso entre especialistas do esporte e da medicina. A figura do treinador é fundamental. “Dependendo da maneira como o aluno é ensinado ele pode ter um desenvolvimento saudável e o esporte até servir para diminuir a rebeldia. Cabe aos pais saber muito bem qual é a filosofia da academia para não entregar o filho a um profissional que vá incentivar o aluno a usar o que está aprendendo para brigar na rua”, diz Sérgio Kuroda, professor de psicologia e esporte da Universidade de São Paulo. “Toda modalidade de contato físico precisa ter um cuidado maior. No vôlei, se o técnico for irresponsável, o aluno não vai sair da aula com habilidade para matar uma pessoa. No boxe e no jiu-jitsu, sim. Esses esportes ensinam a usar o corpo como arma”, diz Kuroda. De uma coisa não há dúvida. Um jovem de 16 anos não tem total consciência das conseqüências físicas e psicológicas que o boxe poderá trazer-lhe. No caso de um garoto de 12 anos, essa avaliação ficará ainda mais comprometida. Matéria de abril de 2000

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